quinta-feira, 28 de junho de 2007

Qual a distância?

Em algum momento da vida colocaremos em prática alguns dos conhecimentos que aprendemos na escola. Fora o vestibular, minúsculo momento na minha humilde eternidade, nunca soube bem para que eu poderia aplicar a informação que o meu professor de física me ensinou: a distância entre o objeto e a imagem no espelho é o dobro da distância entre o objeto e o espelho.

Nessa época nem poderia supor em me interessar por cinema, nem como platéia e menos ainda como roteirista. Mais de 20 anos após aprender isso, aprendi que qualquer conhecimento será útil, terá seu valor, desde que o ser humano seja colocado no centro da questão, no fim (finalidade) do conhecimento.

Hoje a minha narrativa começa a se configurar de uma maneira mais exata. Talvez as minhas obsessões já tenham me escolhido. São duas: o homem na sociedade e o homem em confronto com a sua própria existência. Relacionamentos individuais de nenhuma espécie me despertam fascínio.

Aqui vou então com a minha questão de ótica. Se o cinema é física, será muito mais ótica. Se o cinema é arte, então, encontrará seu sentido na estética que conduz o homem ao próprio espelho. Se o mal do homem está em ser o lobo do homem, que o cinema seja a sua cura - social e existencial - , fazendo o homem ser espelho do homem.
David Mamet (em Sob Direção de Cinema) sempre faz a pergunta que todo diretor provavelmente se faz: "onde devo colocar a câmera?". Se é arte, não há precisão na sua construção. Mas se é ciência, se é física, se é ótica, então há um lugar preciso para se colocar a câmera.
E é aqui que eu volto ao meu professor de física. É preciso que o espectadorolhe para a tela e se veja. Porque é neste momento em que a fórmula será precisa, será exata ao coração do público: a distância entre o homem e a tela deve ser a metade da distãncia entre o olho humano e o seu reflexo na tela.
O homem há de sentir-se refletido no cinema. Para que se olhe. Para que veja o seu entorno social. Para que saiba que as suas inquietações são mais comuns do que imagina, porque são humanas.
O cinema - arte das mais caras - não pode se dar ao luxo de ser apenas um entretenimento de férias, sem propósitos, para o espectador que aguarda a mulher acabar de fazer as compras no shopping.
O cinema é o meio da distância entre o espectador e o seu reflexo. O cinema é o meio: o início é o homem e o fim é o homem. Onde colocar a câmera, David Mamet? Colocar de frente para o espectador, para que, antes de quaisquer coisas, ele possa ver a si mesmo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também ...um livro, uma máquina, um par de botas, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira...Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
Quer experiemntar? Olhe-se no espelho...
Bjs Lindeza

Inis Leahy disse...

Finalmente estou passando por aqui pra ler seus textos!
Vou tentar ler tuuudo!
heheh
=****

Iracema Chequer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.