quinta-feira, 31 de maio de 2007

Roque Araújo, guerrilheiro

Fevereiro de 2005.

Com um roteiro na mão não se faz um filme. Escrevi Cegueira em 2004 e era mais um roteiro na gaveta. Até que Rubão descobriu que a DIMAS tinha equipamentos para emprestar. Bem, fomos lá para ver como é que funcionava.
Um funcionário nos atendeu. Roque Araújo. Eu disse 'um funcionário'?! Sim, como todo guerrilheiro ele sabe que não adianta destruir o sistema: tem que usar o sistema para mudar o sistema. Chegamos lá falando que tínhamos uma idéia na cabeça, mas não tínhamos uma câmera na mão. Ou seja, um bando de pé rapado, sem grana e com pretensão de sobra.
"Mandem o ofício com pelo menos dois emses de antecedência. O equipamento vai emrpestado, mas pelas novas orientações um funcionário da DIMAS tem que ir acompanhando. É a única coisa que vocês têm que pagar. O resto é de graça. Ah! Lâmpadas, fitas, transporte e alimentação também".
O preço que ele deu da sua diária era impossível para guerrilheiros. Ele abaixou o preço para 2/3 do valor inicial. Era impossível para guerrilheiros. Baixou para a metade. Impossível ainda. Baixou apra 1/3!!! Apenas 30% do valor!!!!!! Embora ainda fosse impossível, não tive mais coragem de dizer que não tinha dinheiro. Pedi apenas que tentássemos fazer toda a filmagem em 7 dias: 12 seqüências, 11 locações, muitos planos... Ele topou!
Nem por causa do meu roteiro genial, nem pela minha equipe de atores, nem pela equipe técnica. E por que então? Uma das missões mais fortes de um guerrilheiro é preparar novos guerrilheiros, porque o combate não pode parar. Não percebi isso duarante as filmagens. Somente ao final, quando fui pagar o acertado e agradeci pela atitude dele - e de Ratinho, seu fiel escudeiro, pessoa com experiências em tudo de audiovisual: propaganda, institucional, cinema, TV e, até mesmo, 'lustrosas' cinematográficas - e ele me disse que queria mesmo era "formar mais gente com vontade de trabalhar com o cinema".
A minha decisão de largar a Faculdade de Cinema, da FTC, se deu pelo fato de que não quero ter um diploma de cinema. Não sou um teórico de guerrilha: sou guerrilheiro! mas certamente precisava de alguém que me ensinasse a comandar, que me ensinasse a atirar, que m ensinasse a apontar com mira precisa. Como Tirofijo, eu precisava de um Che. Quantas pessoas têm a oportunidade de ter como professor o cinegrafista de Glauber Rocha? Eu tive! E tive mais, bem mais que isso. Tive a experiência de conhecer a prática de não 'perder a ternura jamais'.
Obrigado, Roque, por me ensinar os caminhos. Obrigado, Laila Carneiro, melhor leitora dos meus textos. Obrigado, Rubão, guerrilheiro por natureza, sem o qual a logística da guerrilha não teria funcionado. Obrigado, Saulo, 'para todas as coisas'.Obrigado, Ive, Le Continuist, amável sempre, sincera sempre, ariana e vocacionada para os detalhes que me passam em branco. E, sobretudo, Ive, obrigado por me permitir pensar sobre Roque Araújo, pessoa que me fez - e faz - acreditar no cinema, não como meio de sobrevivência, mas como arte e forma de exercício da essência humana.

Um comentário:

Jailson disse...

Brother, saco nada de cinema. Gosto apenas de ouvir coisas do Glauber. Saco nada de música. Gosto apenas de ver coisas do Tom Zé. Sou professor de História. Estive na Bahia recentemente, coisas de trabalho (ou busca de trabalho). Cachoeira. Tava rolando o BAFF (Bahia AFro Festival Film) ou coisa que o valha. O Roque tava lá. Mostrando a todo mundo as coisas que tinha. Fiquei embasbacado. Pra mim, não chega.
Abrs. Jaílson