segunda-feira, 30 de abril de 2007

Ainda que não haja ninguém!

"No final de Luz de Inverno vemos um padre que quase perdeu a fé celebrando uma missa em sua igreja completamnete vazia. ... 'Sim, Bergman quer nos dizer que os espectadores no mundo inteiro estão se desligando do cinema, mas acha que devemos continuar mesmo assim a fazer filmes ... ainda que não haja ninguém no cinema'." (François Truffaut, em O Prazer dos Olhos. Escritos sobre Cinema)


Talvez só exista uma coisa mais triste e desoladora que um filme iluminando a sala escura do cinema deserto: um cinema deserto sem, ao menos, o filme iluminando a sala escura.
Fazer um filme ou deixar de fazê-lo não pode estar ligado aos aspectos - indiscutivelmente importantes - da exibição. Primeiro quero analisar o indiscutivelmente importante. A arte não pode ser feita para as gavetas. A arte quer se mostrar ao mundo e, mais que isso, tem que se mostrar ao mundo. Porque a arte só existe enquanto elemento de confronto com o mundo, só existe enquanto elemento de contraste estético, de denúncia social, de esperança. de informação, de educação.
Sérgio Machado (Onde A Terra Acaba, 2002) disse em Cannes certa vez sobre a importância de se fazer um filme em um país latino americano:

"Se eu não falar do meu mundo, quem irá falar? Os que não o conhecem ou os que querem que ele seja conhecido de uma maneira menor, de uma maneira que atenda os seus interesses."
O filme precisa ser visto, para ser degustado, para ser criticado, para ser debatido. Fazer um filme e deixá-lo na gaveta é como criar o mundo e esquecer de dar o sopro, que faz que o homem deixe se ser barro e se torne um personagem da história da eternidade.
Entretanto, fazer um filme não pode passar pela questão da exibição, porque já não cabe, após 100 anos, a discussão retórica sobre cinema: arte ou indústria? São os dois, que devem conviver e se respeitar, ambos agindo como escritor e editor, como compositor e produtor musical. Todas as artes passam, em algum momento, de alguma forma, pela indústria e ou pelo comércio.
O cinema é arte de roteirista, de diretor de fotografia, de diretor, de crítico, de espectador. O cinema é indústria de produtor, de produtor executivo, de financiador (que muitas vezes é o governo).
Se os últimos têm motivos para se preocupar com as salas vazias, os primeiros também o têm. Porque a relação é retroalimentativa no seu conjunto. Daí a deixar de fazer filmes porque as salas estão vazias é um equívoco sem tamanho. Que os primeiros - dos produtores executivos ao governo - façam a sua parte, através de acordos com salas de exibição, de uma distribuição mais eficiente, de estímulos a novas salas de exibição, de novos formatos de exibição digital de custo bem mais barato, de espaços comerciais e ações inteligentes que sabotem a pirataria, de cinemas volantes, de uma infinidade de esquemas que permitam ao cinema ser visto.
Rilke dizia que 'só se deve escrever, quando não se pode, de todo, deixar de escrever'. Escrever um roteiro, dirigir um filme tem que ser uma necessidade imperativa, porque se não for assim, o filme não terá a força de uma obra de arte, de arte que quer ser vista, de arte que tem que ser vista.
O cinema não pode parar porque cinema é luz, mas não a luz no fim do túnel, que vem na direção oposta, mas sim a luz que ilumina o nosso caminho, luz que vem do alto, luz que se projeta na velocidade do olhar do homem e que o conduz para o mundo de sonhos.

10 comentários:

Alban disse...

Sou totalmente leigo no assunto, mas me atrevo a chamar o texto de muito bom! :D

Abração.

Isadora disse...

Gostei bastante do texto, de verdade.
Traduziu tudo que eu já tinha pensado sobre o cinema e me mostrou outras coisas que eu nunca tinha percebido.
Beijo na bochecha rosa.

Caio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rubão disse...

E ainda que não haja luz: cinema.

Aquele abraço, director!

Saulo disse...

"Sim" eterno ao filme. Nem que seja projetado na parede branca da garagem, na vaga de seu vizinho que viajou, com uns convidados e uns sacos de pipoca de microondas, espremidos entre as duas linhas amarelas.

Bruna Improta (IG) disse...

(Palmas!)

Mesmo que só ressoem as minhas palmas, o cinema, assim como a palavra, não tem como acabar!
E viva quem faz das palavras arte, e dessa arte, cinema. Você!

Um beIGo e um abraço de parabéns.
=]

Alice disse...

Reinofy fez um blog! Que bom! Agora mesmo de longe vou poder continuar a ler os pensamentos do meu cineasta-professor!
Beijos!

Johnny disse...

Então, Rei, vc tb é blogueiro agora?! E começou bem. Abraços e vida longa!

Reure disse...

concordo que a obra só existe quando percebida, sentida, interpretada. apenas falando do filme como alguma COISA, não nos tentáculos sociais, industriais etc. seja mal gostada, mal conceituada, mal vista... só será uma obra de arte quando alguém puder percebê-la. e para isso... não adianta apenas fazê-las.... enfim... li sobre isso ha pouco tempo. wheeee

Anônimo disse...

... sempre que leio esse texto, admiro mais a beleza dos olhos de quem escreveu.
Seu olhar alonga o meu.